A perda da visão raramente acontece de forma repentina no glaucoma. Na maioria das vezes, ela chega devagar, silenciosa, quase imperceptível. E talvez seja justamente isso que torne a doença tão perigosa.
Celebrado em 26 de maio, o Dia Nacional de Combate ao Glaucoma, instituído pela Lei nº 10.456/2002, chama atenção para uma condição que continua sendo uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. O grande desafio, segundo especialistas, é que muitos pacientes convivem com a doença durante anos sem perceber qualquer alteração importante na visão.
O oftalmologista do Instituto de Olhos de Vila Velha, Gustavo Federici Mendes, explica que o glaucoma acontece quando ocorre uma lesão progressiva do nervo óptico, estrutura responsável por levar as informações visuais dos olhos até o cérebro. “Em muitos casos, essa lesão está relacionada ao aumento da pressão intraocular, embora a doença também possa surgir em pacientes com pressão ocular considerada normal”, contou o médico.
Segundo o oftalmologista, o comportamento silencioso da doença é um dos principais fatores que dificultam o diagnóstico precoce. “O glaucoma normalmente não provoca dor, vermelhidão ou sintomas evidentes no início. O paciente continua enxergando aparentemente bem e só percebe alguma alteração quando a doença já está em estágio mais avançado”, explica.
Isso acontece porque a perda visual provocada pelo glaucoma costuma começar pela visão periférica. Como o cérebro se adapta gradualmente às mudanças, muitos pacientes não percebem que o campo visual está diminuindo.
Diferente de outras doenças oculares que causam embaçamento central ou desconforto imediato, o glaucoma avança lentamente, comprometendo fibras do nervo óptico de forma progressiva e irreversível. Uma vez perdida, a visão não pode ser recuperada. Por isso, a prevenção ainda é considerada a principal ferramenta contra a cegueira causada pela doença.
Gustavo Federici Mendes lembra que a consulta oftalmológica permite avaliar não apenas a pressão intraocular, mas também estruturas fundamentais como nervo óptico, retina e campo visual. Atualmente, exames modernos conseguem identificar alterações muito antes do surgimento dos sintomas, aumentando significativamente as chances de controle da doença.
“Hoje conseguimos diagnosticar o glaucoma de maneira cada vez mais precoce. E isso muda completamente o prognóstico do paciente. Quanto antes identificamos a doença, maiores são as possibilidades de preservar a visão ao longo da vida”, destaca Dr. Gustavo.
Alguns fatores aumentam o risco para o desenvolvimento do glaucoma, como histórico familiar, idade acima dos 40 anos, diabetes, hipertensão arterial, miopia elevada e uso prolongado de corticoides. Ainda assim, a doença também pode surgir em pessoas sem fatores de risco aparentes, o que reforça a importância do acompanhamento oftalmológico regular.
Apesar de não ter cura, o glaucoma possui tratamento e controle. O objetivo é impedir a progressão da lesão no nervo óptico e preservar a visão remanescente do paciente. Dependendo do caso, o tratamento pode incluir colírios, procedimentos a laser ou cirurgia.
Nos últimos anos, os avanços tecnológicos também transformaram o acompanhamento da doença. Equipamentos mais modernos permitem monitorar pequenas alterações estruturais com maior precisão, tornando o tratamento mais individualizado e seguro.
Para o especialista, o maior problema ainda está no diagnóstico tardio. “Muitas pessoas acreditam que enxergar bem significa ter olhos saudáveis. O glaucoma mostra exatamente o contrário. É possível perder visão de forma silenciosa durante anos”, alerta.
Em uma doença onde o tempo faz diferença, a informação continua sendo uma das formas mais importantes de prevenção. Porque, no glaucoma, preservar a visão depende, principalmente, de descobrir a doença antes que ela dê sinais.

