Nem todo problema de visão começa na retina, no cristalino ou na necessidade de aumentar o grau dos óculos. Em alguns casos, a dificuldade para enxergar está na própria córnea, a estrutura transparente que fica na parte da frente do olho e funciona como uma espécie de “janela” por onde a luz entra.

Quando essa estrutura perde sua transparência, sofre alterações importantes em seu formato ou é danificada por uma doença, infecção ou trauma, a visão pode ficar progressivamente comprometida. Em situações mais avançadas, quando outras formas de tratamento já não são suficientes, pode ser necessário recorrer ao transplante de córnea.

“Resolvemos abordar esse tema porque conta do mês de conscientização sobre a doação de órgãos, o Setembro Verde. Entretanto, nada de alarde! Hoje, temos diferentes possibilidades de tratamento para as doenças da córnea. O transplante é reservado para situações em que a córnea apresenta uma alteração mais avançada e não conseguimos recuperar sua função de outra maneira”, explica o oftalmologista Dr. Gustavo Federici Mendes, do Instituto de Olhos de Vila Velha (IOVV).

Esse ponto da história é importante: ter uma doença da córnea não significa, necessariamente, que o paciente precisará de um transplante. O diagnóstico e o acompanhamento oftalmológico são justamente fundamentais para identificar a doença em seu estágio inicial e definir o tratamento mais adequado.

Uma das doenças mais conhecidas quando o assunto é transplante de córnea é o ceratocone. A doença provoca um afinamento e uma alteração progressiva do formato da córnea, que deixa de ter uma curvatura regular e pode assumir um formato mais semelhante ao de um cone. O resultado é uma distorção da imagem que pode provocar aumento do astigmatismo, dificuldade para enxergar com nitidez e necessidade frequente de mudanças na correção visual.

O ceratocone costuma surgir ainda na adolescência ou no início da vida adulta e pode evoluir de maneira diferente em cada pessoa. Por isso, não basta apenas trocar os óculos quando a visão piora.

“Um dos grandes problemas é o paciente perceber apenas que o grau mudou e não investigar o motivo. No ceratocone, acompanhar a evolução da córnea é muito importante, porque existem tratamentos capazes de controlar a progressão da doença em determinados estágios”, explica o oftalmologista do IOVV, Gustavo Federici Mendes.

Entre as opções utilizadas de acordo com o estágio da doença estão óculos, lentes de contato especiais, anéis intracorneais e o crosslinking, procedimento que tem como objetivo aumentar a resistência da córnea e impedir ou reduzir a progressão do ceratocone.

Em casos avançados, quando a córnea apresenta alterações importantes e não há mais resposta satisfatória às demais alternativas, o transplante pode ser indicado. O Ministério da Saúde também reconhece o ceratocone entre as condições que podem levar à indicação do procedimento.

Outra situação que pode levar ao transplante são as cicatrizes e opacidades da córnea, conhecidas como leucomas. Elas podem aparecer depois de infecções, traumas, queimaduras químicas ou outras doenças que lesionam a córnea. Dependendo da localização e da intensidade da cicatriz, a passagem da luz pode ser prejudicada e a visão ficar bastante reduzida.

“Uma cicatriz pequena e periférica não necessariamente terá o mesmo impacto que uma opacidade localizada na região central da córnea. Por isso, não é apenas a existência da cicatriz que determina a necessidade de transplante, mas o quanto aquela alteração compromete a função visual e a estrutura do olho”, explica o oftalmologista.

Infecções oculares graves também merecem atenção. Úlceras e ceratites podem provocar danos importantes à córnea e, em determinadas situações, deixar cicatrizes permanentes. Por isso, dor ocular, vermelhidão intensa, sensibilidade à luz, secreção ou piora repentina da visão não devem ser tratados como uma simples irritação nos olhos.

Existem ainda as distrofias da córnea, um grupo de doenças que pode ter origem genética e provocar alterações progressivas em diferentes camadas da córnea. Entre elas está a distrofia de Fuchs, que afeta principalmente as células da camada interna da córnea, responsáveis por ajudar a mantê-la transparente. À medida que essas células perdem sua função, a córnea pode acumular líquido, ficar inchada e perder transparência.

A evolução varia de pessoa para pessoa e nem todos os pacientes chegarão a uma indicação de transplante. Entretanto, em casos avançados, quando o comprometimento da córnea passa a interferir significativamente na visão e outras alternativas não são suficientes, o transplante pode ser considerado.

O que pode evitar que uma doença chegue ao transplante?

A resposta passa por uma atitude aparentemente simples: não esperar a visão piorar para procurar o oftalmologista.

Algumas doenças da córnea evoluem silenciosamente ou são percebidas inicialmente apenas como uma mudança no grau dos óculos. No caso do ceratocone, por exemplo, exames que avaliam o formato e a espessura da córnea ajudam a acompanhar sua evolução e a identificar mudanças que não podem ser percebidas apenas pelo teste convencional de acuidade visual.

“Quanto antes identificamos uma doença corneana, maior é a possibilidade de discutir alternativas de tratamento e acompanhar sua evolução. O objetivo não é esperar o paciente chegar a uma situação em que precise de transplante, mas justamente cuidar antes que isso aconteça”, reforça Dr. Gustavo Federici Mendes.

Por isso, mudanças frequentes no grau, piora da qualidade da visão, dificuldade para enxergar mesmo com a correção habitual, sensibilidade à luz, dor ou alterações persistentes nos olhos merecem avaliação oftalmológica.

A córnea é transparente, mas os sinais de que ela precisa de atenção nem sempre são. E, quando se trata de doenças corneanas, enxergar o problema cedo pode fazer diferença no caminho que o paciente terá pela frente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Como podemos ajudar?