Você coça os olhos com frequência?

A pergunta parece simples, mas pode revelar um comportamento capaz de influenciar diretamente a saúde da córnea e favorecer a progressão de uma doença que afeta milhares de brasileiros todos os anos: o ceratocone.

Durante o Junho Violeta, campanha nacional de conscientização e combate ao ceratocone, especialistas reforçam a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e, principalmente, da mudança de hábitos que podem comprometer a visão ao longo da vida. A iniciativa foi criada pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia para ampliar o conhecimento da população sobre uma doença que, apesar de relativamente comum, ainda é pouco conhecida.

O ceratocone é uma alteração progressiva da córnea, estrutura transparente localizada na parte frontal do olho e responsável por grande parte da focalização da visão. Com a doença, a córnea perde sua resistência natural, torna-se mais fina e assume gradativamente um formato semelhante ao de um cone, provocando distorções visuais que podem comprometer significativamente a qualidade de vida.

Segundo o oftalmologista do Instituto de Olhos de Vila Velha (IOVV), Dr. Gustavo Federici Mendes, um dos maiores desafios é que os primeiros sinais costumam ser confundidos com problemas refrativos comuns. “Em muitos casos, o paciente acredita que está apenas aumentando o grau dos óculos. Ele passa a enxergar borrado, percebe sombras nas imagens, dificuldade para dirigir à noite ou necessidade frequente de trocar a correção visual. Quando investigamos mais profundamente, encontramos alterações compatíveis com o ceratocone”, explica.

Muito além da genética
Embora fatores genéticos tenham participação importante no desenvolvimento da doença, estudos mostram que fatores mecânicos também exercem influência significativa. Entre eles, um dos principais é o hábito de esfregar ou coçar os olhos repetidamente.

“A córnea é uma estrutura delicada. Quando o paciente coça os olhos de forma frequente e vigorosa, cria um trauma repetitivo que pode favorecer a progressão da doença, especialmente em pessoas predispostas. Por isso, uma das principais orientações é evitar ao máximo esse hábito”, destaca o especialista.

Diagnóstico cada vez mais precoce
Nas últimas décadas, a oftalmologia passou por uma verdadeira transformação no diagnóstico das doenças da córnea. Exames modernos permitem identificar alterações extremamente precoces, muitas vezes antes mesmo de o paciente perceber qualquer dificuldade visual. Entre eles estão a topografia corneana, a tomografia da córnea e avaliações biomecânicas que analisam a resistência do tecido corneano.

Para o Dr. Gustavo, essa evolução mudou completamente a forma de conduzir os casos. “Hoje conseguimos detectar o ceratocone muito mais cedo. Isso faz toda a diferença porque permite intervir antes que a doença avance e provoque perdas visuais mais importantes”, completou o oftalmologista do IOVV.

Quando o assunto é ceratocone, muitas pessoas ainda associam a doença ao transplante de córnea. Embora esse procedimento continue sendo necessário em situações específicas, ele está longe de representar a realidade da maioria dos pacientes.

Atualmente, existem tratamentos capazes de estabilizar a progressão da doença e preservar a visão por muitos anos. Entre os mais importantes está o crosslinking corneano, procedimento que fortalece as fibras de colágeno da córnea e ajuda a interromper sua deformação progressiva. Dependendo do estágio da doença, também podem ser indicadas lentes especiais, implante de anel intracorneano e outras abordagens individualizadas.

“O principal objetivo é preservar a visão do paciente. Quanto mais cedo identificamos a progressão da doença, maiores são as chances de controlar o quadro e evitar tratamentos mais complexos no futuro”, afirma Dr. Gustavo Federici Mendes.

A prevenção começa com informação
O Junho Violeta reforça uma mensagem importante: nem sempre os maiores riscos para a visão estão associados a doenças raras ou difíceis de identificar. Às vezes, eles estão escondidos em hábitos repetidos diariamente.

Evitar coçar os olhos, controlar adequadamente alergias oculares, realizar consultas oftalmológicas periódicas e procurar avaliação especializada diante de qualquer alteração visual são atitudes simples que podem fazer toda a diferença.

“A informação continua sendo a nossa principal ferramenta de prevenção. Quanto mais as pessoas conhecem o ceratocone, maiores são as chances de um diagnóstico precoce e de um tratamento eficaz”, conclui Dr. Gustavo Federici Mendes.

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